ECLIPSE OCULTO - Parte I

Vos postulo ut redivivus perseverare in via.’
(É preciso renascer para prosseguir na estrada.)


O primeiro encontro com o Meritíssimo foi em um banco de concreto na Praça da Sé. 
Ele estava sentado, vestido com um lençol encardido amarrado na cintura por uma corda. 
O rosto, solene e sereníssimo, era adornado por uma barba grisalha e os cabelos longos até a altura dos ombros. Os óculos de grau quadrados, dependurados no nariz grande.

Ao seu redor, dezenas de cães sem raça, a maioria amarelos, estavam deitados enquanto o Meritíssimo espalhava migalhas de pão seco aos pombos, sob o olhar entediado do obeso gato rajado aninhado no seu colo.

-Você sabia que Nicola Tesla, o maior gênio do Século XX, não se envolvia amorosamente com as mulheres. Ou ninguém da sua espécie? Dizia que lhe roubaria a sua energia mental.  Eu digo: As mulheres roubam mais do que isso de um homem.Mas compensa. E o Nicola teve um grande, sincero e breve amor. Uma pombinha. Destas, que voam e ciscam o chão.

Finalmente o Juiz ergueu o olhar para o rapaz.

-Então, você é o Boy Paraíso! – Constatou -  De onde você vem, meu jovem?

O atordoado rapaz não tinha ideia sobre o que responder. Não conhecia a cidade onde estava, tampouco recordava do lugar de onde viera. Sua mente, ainda confusa, não permitiu que o nevoeiro denso onde ele procurava as memórias, antes da Estação Paraíso, se abrisse e revelasse seus segredos.

-Não sei, senhor. Acho que minha mente não funciona. Dominique acredita que deve ser porque fui espancado terrivelmente.

-Faz algum sentido. Mas não me lembro de ter visto no seu prontuário médico, qualquer indício de lesão na região do crânio.

‘Meu prontuário médico?’.

Boy Paraíso estivera internado em uma clínica médica particular por quase três meses e, segundo Dominique, a enorme despesa médica correu por conta de uma ONG da qual o Meritíssimo Juiz fazia parte.
E ela não deu mais detalhes. Especialmente quando anunciou que já era hora do Boy arranjar uma identidade, um emprego e dar rumo na vida. 
Daí a razão da entrevista com aquele estranho homem.

O MJ continuou a entrevistá-lo. Perguntou sobre a infância, a idade, escolaridade, cidade Natal... e Paraíso não sabia responder a qualquer daquelas indagações. E quanto mais forçava a mente em busca de uma pista, mais a enorme enxaqueca que se instalou, aumentava sua força pulsante.

Percebendo o visível desconforto do rapaz, o homem compadeceu-se.

-Sente-se aqui – Indicou o espaço no banco. –Preciso acelerar o despacho. Me dê suas mãos. São mãos razoavelmente finas para um homem. Você devia ter algum trabalho intelectual na sua vida pregressa esquecida. A Organização Themis fez uma triagem nos seus antecedentes. Com base nas digitais e padrão facial. Não surgiu nada. Especialmente porque suas digitais estão, praticamente, apagadas. Você sabe que as mulheres que, antigamente trabalhavam nas plantações, puxando o cabo de enxada juntamente com toda a sua família de imigrantes italianos, um mês antes de se casarem, largavam o cabo da enxada e passavam a trabalhar como lavadeiras. Pra afinar as mãos? E o processo era ajudado passando seiva de mamão verde na palma. Ela queima a pele. E pode apagar as digitais.

-Porque estou aqui, senhor! – O rapaz interrompeu o raciocínio.

Meritíssimo não permitia ser interrompido por qualquer um no seu tribunal. A maioria dos solicitantes que eram apresentados diante de sua solene tribuna, mantinha a cabeça baixa, reverentes e humildes. Mas aquele moço tinha uma atitude um tanto direta, quase arrogante.

Os cães começaram a latir e a uivar, todos ao mesmo tempo e os pombos fugiram assustados.

-Ordem no Tribunal !
E os cães voltaram a se acalmar.

-Retomando a você, rapaz, a senhora Dominique alega que é quase impossível mentir na sua presença. Que consegue “cheirar” a enganação, mesmo das bocas caladas. Daí então que, se concordar, tenho documentação e emprego pra lhe oferecer. Dois empregos, na verdade. Um de fachada e outro para a Organização que lhe salvou a vida e está prestes a lhe oferecer uma vida nova. Tudo tem um preço.

-E qual seria este preço?

-Você segue a sua nova vida, tentando não chamar a atenção de nada e ninguém enquanto, quando convocado, prestará free lancer para a Organização. É simples. Qualquer um com uma ervilha na cabeça poderia cumprir as tarefas de recruta iniciático.

-Por exemplo?

-Desviar e vasculhar lixos de lixeiras para conseguir informações. Quer mais exemplos?

-Não. Parece simples. Mas, eu poderia rejeitar o recrutamento?

-Não. Os recrutas não escolhem nada. Mas a Organização Themis, após o período iniciático, poderá rejeitá-lo. E já vou avisando que isso não é bom. Uma vez iniciático, sempre comprometido. Por outro lado, se você se adaptar e progredir, será bem recompensado.

-Mas...

O jovem ainda não parecia convencido.

-O que o incomoda, meu rapaz? Sabe quantos recrutas foram admitidos no iniciático de Themis neste ano? Nenhum. Escolhemos nossos recrutas com extremo cuidado. Há muita coisa envolvida. E, dos dois recrutas escolhidos no ano passado, somente um permanece “funcional”. O outro se perdeu.

-Como ?

-Morreu.

-Vocês o mataram?

-Não!

E o rapaz viu a ausência da verdade na simples negativa dele.
Voltou-se sobre si com intenção de fugir daquela versão tupiniquim do Chapeleiro Louco de Alice no País das Maravilhas, porém um dos cães agarrou a barra de sua calça jeans com os dentes.

-Parece que o Auceu gostou de você! E olha, que o Auceu não gosta de ninguém mais além de minha excelentíssima pessoa. Vamos, sente-se. Sei que leu a inverdade nos meus olhos, porque a perda deste iniciático, assim como de todos os outros infortunados, sempre nos causou um certo sentimento de responsabilidade. Talvez tenhamos errado em dar a ele um poder para o qual não estava preparado para administrar. O poder de se mover na fronteira cinzenta entre a Lei e o Crime.

Boy Paraíso voltou a sentar-se no banco, visivelmente nervoso. Nervosismo este que piorou quando o Juiz colocou o gato no seu colo.

-Tire este bicho daqui! – Ele rejeitou, mas não fez qualquer movimento. Pareceu congelado.

Meritíssimo ergueu um dedo, como se convocando silêncio no seu tribunal e aproximou uma orelha do gato.

-Surpreendente. O Rajá está ronronando. Ele jamais ronronou para qualquer um. E...
Boy podia sentir nas pernas a enorme vibração que o ronrom daquele gato provocava. E, se ele acreditou que não poderia piorar, além da alergia se propagando em  seu nariz e olhos,  o Rajá levantou-se e começou a “amassar pão”, para completa maravilha do louco Juiz.

Mas, porque o Boy ainda se mantinha ali?
Porque não tinha qualquer outra opção. Dominique Lacroix o convencera que São Paulo devorava uma quantidade exorbitante de pessoas, todos os dias. E, que naquelas ruas, não se conseguia um copo de água de graça. Para sobreviver era preciso “arte”. E, como o rapaz parecia desprovido de qualquer uma delas. 
Por isso, auxiliado por documentos, fé, coragem e boa vontade, poderia conseguir emprego e um bom abrigo “onde meter as orelhas”.

-Vai na entrevista de emprego, Boy. Se cair nas graças do Juiz, a gente se arranja!

O minuto tenso de silêncio foi interrompido pelo homem velho.

-Parabéns, a vaga é sua! – Ele disse, pescando Rajá de volta para seu colo -  E, apesar de sua relutante arrogância agora, meu rapaz, devo dizer que acredito que ofereço o emprego perfeito para o seu perfil, direto do nosso escritório de Recursos Humanos. Só mais umas perguntas de rotina e a sessão se encerra. Qual a sua orientação sexual?

Boy Paraíso pareceu ainda mais perdido.

-Ok. Vou reformular minha pergunta. Qual a aparência que você quer manter de fachada? Homem ou mulher? A razão é porque, no seu caso, com estes cabelos longos e sedosos, sem qualquer pelo no rosto, peito e genitais, eu o classificaria como: SGD -  Sem gênero definido. Vamos, me diga o gênero que quer para os seus documentos.

-Masculino.

(Continua...)

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